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Amo-te por sobrancelhas, por cabelo, debato-te em corredores
branquísimos onde se jogam as fontes da luz,
Discuto-te a cada nome, arranco-te com delicadeza de cicatriz,
vou pondo no teu cabelo cinzas de relâmpago
e fitas que dormiam na chuva.

Não quero que tenhas uma forma, que sejas
precisamente o que vem por trás de tua mão,
porque a água, considera a água, e os leões
quando se dissolvem no açúcar da fábula,
e os gestos, essa arquitectura do nada,
acendendo as lâmpadas a meio do encontro.

Tudo amanhã é a ardósia onde te invento e desenho.
pronto a apagar-te, assim não és, nem tampouco
com esse cabelo liso, esse sorriso.

Procuro a tua súmula, o bordo da taça onde o vinho
é também a lua e o espelho,
procuro essa linha que faz tremer um homem
numa galería de museu.

Além disso quero-te, e faz tempo e frio.

Julio Cortázar

"

Os mortos vêem o mundo
pelos olhos dos vivos

Eventualmente ouvem,
com nossos ouvidos,
certas sinfonias
algum bater de portas,
ventanias

Ausentes
de corpo e alma
misturam o seu ao nosso riso
se de fato
quando vivos
acharam a mesma graça

" - Ferreira Gullar - Os Mortos
"Não sei que dia você pegará neste papel novamente e verá a caligrafia trêmula, os pequenos círculos de manchas na tinta azul, e vai se lembrar do que aconteceu, vai sentir a ponta afiada da tristeza quase lhe perfurando novamente onde hoje há uma cicatriz, mas tenho a certeza de que não vai doer tanto quanto quando a ferida estava aberta e a dor exposta. Talvez até esteja triste por outros motivos e não lhe julgo, não lhe cobro, não escarro em sua dor. Apenas peço que se lembre que já doeu antes, que o seu canal lacrimal conduzindo o pranto até seu olhos e o resto do seu corpo simultaneamente reagindo a isso já sufocou antes a sua respiração e não foi nem o ápice do seu histórico de quase-morte. Lembra que antes da ultima decepção, tristeza, raiva, choro, grito, briga, vieram outras e, depois do próximo (pseudo) fim-do-mundo, virão outras. Lembra que guardar mágoa apodrece primeiro o espírito e depois o corpo e que essa auto-destruição não é pra você. Lembra que não é porque um amigo lhe traiu, que não tens quem o ame. Que não é porque um amor enlouqueceu-lhe e roubou-lhe a paz, que não tens a quem amar. Enfim, eu sei que as coisas atingem-lhe de um modo absurdo e que não saber lidar com isso é terrível, mas lemba que fere, machuca, confunde, mas passa. Vai, respira vagarosamente. Libera qualquer sentimento negativo e fica só com as coisas boas. Absorva algum aprendizado disso que está acontecendo, independentemente do que seja. E, quando conseguir se acalmar e recordar que não há e nunca houve outra saída a não ser ir em frente, recomeça." - De mim para mim mesma, Yasmim Arantes.  
"Trazia a folha em branco, a caneta e a mão pesada de desatinos. Vinha você com toda poesia. Trazia o coração surrado, os sentimentos frouxos e o “eu” que já não me cabia. Vinha você com toda paz. Trazia os questionamentos infinitos, as dúvidas doloridas e até a descrença na vida. Vinha você com as respostas no sorriso e um ponto final no abraço. Trazia a ânsia, a urgência, o desespero. Vinha você com a calmaria de uma brisa. Trazia a multiplicação, as sobras e tornava tudo demasia. Vinha você com a equação certa e a resposta final. Trazia tudo por uma corda de conotação. Vinha você com metáforas bem construídas e um encanto singular. Trazia eu mesmo, desgraçado, com um próprio inferno interno e um jeito tolo. Vinha você e mudava tudo, arrumava minha bagunça com graça.
Hoje, que a saudade doeu e a tristeza apertou, vi o quanto miserável sou; que não me bastam danças para um só. Tarde demais. Hoje, arrancar, de cada minuto ao seu lado, uma lembrança; colocar o Fim na conta do destino e paga-la com leves prestações de arrependimento. Hoje, escrever besteiras estúpidas e destina-las a Zé Ninguém. Hoje, mergulhar na fossa ao lado do meu drama e ser, no livro da Existência, apenas mais um que amou errado." - Yasmim Arantes, “Pensamentos perdidos de um desencontrado”.  
"Por mim tudo bem a efemeridade do amor, mas afague meu rosto e cante bem baixinho um canção do Chico; deixe-me decorar cada canto de ti e, com extrema doçura, descobrir o teu “tão-íntimo” que ninguém conhece. Por mim tudo bem tomarmos chuva, mas beija-me enquanto a água molha nosso corpo e lava nossa alma; e que nos dias de sol, não se esqueças de mim. Por mim tudo bem aquecer teus pés no inverno, mas que na primavera façamos longos passeios e possamos dormir na varanda contando estrelas e dedicando a mais brilhante um ao outro. Por mim tudo bem dar-te colo durante o choro e ouvir tuas tristezas, desde que sua companhia preferida seja eu, não elas. Por mim tudo bem teu silêncio, tuas manhas, teus sonhos, tuas histórias, teus livros no meu armário, tuas poesias pela casa; desde que teu coração se dispa de orgulho e me aceite também. Por mim tudo bem que nossa valsa não possa se perdurar, mas saiba que te farei eterno em mim." - Yasmim Arantes, em 1995  
"

Desejo primeiro que você ame,
E que amando, também seja amado.
E que se não for, seja breve em esquecer.
E que esquecendo, não guarde mágoa.

Desejo, pois, que não seja assim
Mas se for, saiba ser sem se desesperar
Desejo também que tenha amigos
Que mesmo maus e inconseqüentes
Sejam corajosos e fiéis
E que pelo menos em um deles
Você possa confiar sem duvidar

E porque a vida é assim
Desejo ainda que você tenha inimigos
Nem muitos, nem poucos
Mas na medida exata para que
Algumas vezes você se interpele
A respeito de suas próprias certezas.
E que entre eles
Haja pelo menos um que seja justo

Desejo depois, que você seja útil
Mas não insubstituível
E que nos maus momentos
Quando não restar mais nada
Essa utilidade seja suficiente
Para manter você de pé.

Desejo ainda que você seja tolerante
Não com os que erram pouco
Porque isso é fácil
Mas com os que erram muito e irremediavelmente
E que fazendo bom uso dessa tolerância
Você sirva de exemplo aos outros

Desejo que você, sendo jovem,
Não amadureça depressa demais
E que sendo maduro
Não insista em rejuvenescer
E que sendo velho
Não se dedique ao desespero
Porque cada idade tem o seu prazer e a sua dor

Desejo, por sinal, que você seja triste
Não o ano todo, mas apenas um dia
Mas que nesse dia
Descubra que o riso diário é bom
O riso habitual é insosso
E o riso constante é insano.

Desejo que você descubra
Com o máximo de urgência
Acima e a respeito de tudo
Que existem oprimidos, injustiçados e infelizes
E que estão bem à sua volta
Desejo ainda
Que você afague um gato, alimente um cuco
E ouça o joão-de-barro
Erguer triunfante o seu canto matinal
Porque assim, você se sentirá bem por nada

Desejo também
Que você plante uma semente, por menor que seja
E acompanhe o seu crescimento
Para que você saiba
De quantas muitas vidas é feita uma árvore

Desejo, outrossim, que você tenha dinheiro
Porque é preciso ser prático
E que pelo menos uma vez por ano
Coloque um pouco dele na sua frente e diga:
“Isso é meu”
Só para que fique bem claro
Quem é o dono de quem

Desejo também
Que nenhum de seus afetos morra
Por eles e por você
Mas que se morrer
Você possa chorar sem se lamentar
E sofrer sem se culpar

Desejo por fim
Que você sendo homem, tenha uma boa mulher
E que sendo mulher, tenha um bom homem
Que se amem hoje, amanhã e nos dias seguintes
E quando estiverem exaustos e sorridentes
Ainda haja amor pra recomeçar

E se tudo isso acontecer
Não tenho mais nada a lhe desejar

" - Desejo - Victor Hugo

Muse - Supermassive Black Hole

Das cartas que nunca vou mandar

Ontem eu chorei quando Ana Carolina ecoou em meus ouvidos cantando Aqui. Aquela voz, aquela música, aquele cenário, tudo me levou à um abismo de lembranças. Lembrei do cheiro - cheiro que encontrei no ônibus hoje e não desgrudou de minhas narinas por horas -, lembrei da risada, lembrei do modo que cantava, da sensibilidade, do quanto demos o nosso melhor, do quando nos amamos e que, as vezes, perdida entre um capítulo e outro, aparece uma história em que o amor não basta. E o amor não basta porque é preciso cuidar dele com muito zelo, para que não vire apenas um verbo surrado e maltratado, conjugado no presente em uma frase afirmativa, enquanto no fundo, no fundo, nenhuma parte do corpo está certa do que a boca automaticamente diz. É preciso contornar todas as curvas desse sentimento, até as mais íngremes; saber apreciar a paisagem: os bosques, os rios, os campos, os abismos, a lama; saborear cada ocaso e cada alvorecer, sem esquecer a beleza da lua e das estrelas. Talvez tenha sido nessas curvas que errei - ou erramos-. Talvez, estonteada com algo tão novo e indescritivelmente bom de se sentir, eu tenha esquecido de verbalizar, talvez nós tenhamos deixado algo se perder entre as nuvens da rotina, talvez a culpa nem seja nossa. Talvez.

Acontece que eu já nem sei mais. Não sei se minha memória que decorou seus traços ou se minha pupilas, invejosas de minhas meninas, gravaram sua face. Não sei se há saudade em cada fração de milésimo ou se são os segundos que me pegam pensando no que fomos e no que não foi. Já não sei mais daquele amor cheio de doçura, que hoje parece apenas algo disforme que se alojou em mim. Não sei mais da tristeza, da raiva, da mágoa ou o que deveria sentir. Desconheço a faceta agradável do silêncio e espero consolo ou tradução para essa bagunça feita pelo acaso.

Anteontem eu sabia de nós, ontem eu não sabia de você e hoje não sei nem de mim. Para amanhã apenas um talvez. 

Yasmim Arantes

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